(Des) orientação profissional ou A arte de escolher

O mundo está em transição. Mudanças na forma do laço social podem ser vistas em todos os campos e pedem uma nova ética. Os laços afetivos agora são permeados por conexões rápidas e mais efêmeras do que nunca, e não menos intensas, por conta de sua curta duração. Os laços de trabalho também passam por mudanças. Nunca se viu tantas reportagens de pessoas que abandonam o emprego para viver uma vida com mais propósito. Nunca se viu tanta oferta de soluções para este tipo de “problema”. E nunca as organizações estiveram tão perdidas na criação de programas de retenção de talentos.

O que faz uma pessoa ficar? É a pergunta que vale para todas as formas de laço humano atualmente. De pais e cônjuges a líderes.

O cenário põe em evidência a habilidade de escolher. Isso mesmo. Escolher nunca esteve tão difícil, ao que parece.

Adolescentes de quinze/dezessete anos que vão escolher uma profissão “para toda a vida” são convidados a escolher entre três áreas já durante o Ensino Médio (se frequentam uma escola conteudista, com foco no vestibular): Humanas, Biológicas e Exatas. Há ainda “à disposição do desejo” destes adolescentes, mais de duzentas opções de curso superior.

Há quem até pouco tempo atrás não considerava a possibilidade de ingressar numa faculdade, por questões financeiras ou por ser desafiado por um ensino público que não prepara para os vestibulares. A possibilidade parece existir agora, pelo acesso a uma universidade pública através do SISU (Sistema de Seleção Unificada) ou a uma universidade privada através do PROUNI (Programa Universidade para todos).

Para os universitários, a escolha da empresa ou a fundação da sua própria, da área de estágio ou a re-escolha do curso superior. Para os adultos, a constatação de uma carreira que não se encaixa mais e os convites midiáticos para se pensar em transições que levem a um novo encaixe. Yes, you can! — É a mensagem do momento.

Escolher é, então, estar disposto a encarar conflitos e descobrir recursos (emocionais, financeiros, sociais) para solucioná-los. Um quebra-cabeças, sem formato final pré-estabelecido na embalagem. Um quebra-cabeças que envolve riscos. Não há garantias, o que faz da escolha, em tempos como os de hoje, um ato de coragem.

Aos olhos da psicanálise, trata-se de um momento ímpar e um privilégio para o convite à desalienação do Outro. Explico: num momento em que critérios habituais de escolha estão também mudando e perdendo a rigidez e universalidade, aumenta a complexidade para a tomada de decisões. Família (qual família?), sucesso (o que é sucesso?), dinheiro (dinheiro para que?), felicidade (o que me faz feliz?). Como se escolhe neste cenário? Com um teste que responda onde me encaixo? É o que muitos esperam.

Para este momento, em que estamos diante da geração que cresceu no mundo VUCA — sigla em inglês para VolatilityUncertainty, Complexity e Ambiguity, novos instrumentos precisam surgir para a escolha. O trabalho de orientação profissional e de carreira é, muitas vezes, a primeira vez que uma pessoa é convidada a elaborar uma narrativa que fale exclusivamente dela. Um ouvido desatento, pode legitimar um discurso alienado. Um ouvido cuidadoso, como propõe a psicanálise, se dispõe a não legitimar aquilo que vem perfeitamente enlatado e robotizado na reprodução da fala de um Outro.

Ao se criar um espaço para que se fale do desejo, há uma pausa, há um silêncio, há um desespero vibrante. Vibrante pela possibilidade (mais uma!) de se ouvir e de se pensar. Afinal, o que se deseja?

Alguns sustentam o sonho dos pais para a carreira. Outros se deparam com o fato de não ter ideia do que gostam e não saber falar sobre o que sonham. Outros sofrem afirmando que é muito difícil escolher dentre tantas possibilidades que se tem hoje. Outros sonham nostalgicamente com uma época (que não viveram) em que não existia assim tantas possibilidades e com elas, tantas dúvidas. Outros dizem que precisam de mais tempo. Outros chegam decididos, mas preferem confirmar. Outros já sabem o cargo que querem ocupar e alguns na empresa x ou y. Outros afirmam aliviados que escolher uma faculdade não significa escolher uma carreira, já que uma mesma faculdade pode levar para caminhos muito diferentes.

O mesmo mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo que angustia, oferece um alívio, mesmo que ilusório: se por um lado nos empurra para a responsabilidade de pensar em algo para a vida toda a partir de desejos singulares (único ordenador que não nos escapa), por outro, garante que é possível mudar a rota, já que tudo muda e é tão incerto. Dois lados da mesma moeda.

Mas, de novo, como se escolhe neste cenário? Há que se construir, há que se inventar um modo singular de escolher e responsabilizar-se por ele. Uma coisa é certa: a fórmula de causalidade tornou-se obsoleta — “Se eu fizer Medicina, então terei dinheiro e status”. “Se eu trabalhar com aquilo que amo, encontrarei a felicidade”. Será? O que eu amo hoje, pode não ser o que eu amo amanhã. Até porque, via tecnologia, somos bombardeados de novas possibilidades e ocupações a todo momento. O que se entende por status hoje pode desaparecer daqui um tempo. Mais uma vez, não há garantias.

Neste cenário, ajudar uma pessoa a escolher uma profissão/emprego, passa por convocar este sujeito atravessado pelas influências culturais, sociais, econômicas e políticas a criar o seu projeto singular. Convocá-lo a confiar na sua “capacidade de viração própria”, sustentada pelo desejo e pelo convite a fundar a partir deste desejo o seu projeto de ser no mundo. E convidá-lo a validar no mundo particular que o cerca (seus amigos, sua família, sua rede) o seu projeto.

Já dizia a canção, ‘tudo muda o tempo todo no mundo’!

Por Adriana Ricci

Sócia-fundadora da TRID, empresa apaixonada por trabalho e identidade. Psicóloga especializada em Orientação Profissional e de Carreira pela USP, Coach pela SBC e Psicanalista pelo IPLA, Adriana possui sólida experiência em Recursos Humanos, sempre ligada aos processos de vanguarda em desenvolvimento e gestão de pessoas de grandes empresas multinacionais, além de atendimento particular em orientação de carreira e psicanálise.

Write a comment

Comments: 0

Receba conteúdo exclusivo

 

(11) 9 9961-2333

 

Alphaville | Berrini | Granja Viana

Higienópolis | Pinheiros | Vila Madalena

São Paulo - SP

 

Empresa registrada no CRP/SP: 06/5671/J