A moral e a carreira: é preciso pensar no impacto que as escolhas produzem para o coletivo

Os atuais acontecimentos políticos, econômicos, ecológicos e sociais, em evidência no cenário brasileiro, parecem convergir para uma única grande crise, fundamentalmente, moral. Segundo Bauman (1), ser moral não significa ser “bom” ou “mau”, mas saber lidar com as consequências produzidas pelas nossas ações junto com o Outro.

A crise moral que enfrentamos é resultante de um sistema onde tudo — a terra, a água, o ar que respiramos e os próprios seres humanos — é transformado em mercadoria. Um sistema onde a construção do coletivo tem o individualismo como elemento característico: propaga-se a ideia de que cada um é individualmente responsável por aquilo que faz de si mesmo e desconsidera-se a forma como o coletivo afeta e é afetado pelos projetos individuais.

Os desafios provenientes desta crise pedem a criação de novas possibilidades para se con-viver. E, para isso, são necessárias reflexões acerca do “ser-junto-com-o-Outro” e das consequências que as ações produzem no todo. Para o mesmo sociólogo , o desafio da Pós-Modernidade é construir uma condição moral de vida na qual cada pessoa possa se tornar responsável pelo Outro e isso só é possível mediante a aproximação.

Você deve estar se perguntando qual é a relação entre moral e escolha profissional ou carreira. Talvez, essa relação seja feita de forma pouco usual até momento. São mais comuns reflexões referentes à relação do trabalho com o indivíduo, como: qual profissão me dará chance de maiores salários?Terei emprego? Terei sucesso? Serei feliz? A ideia aqui não é condenar tais reflexões. Elas são importantes, mas tudo indica que é necessário ampliar a discussão.

O trabalho, dentro de uma concepção marxista (3), é a ação humana de transformação intencional da natureza em que são produzidos os bens materiais necessários à sua existência e por onde o homem constrói a si próprio; sua subjetividade, cognição, identidade e suas relações sociais, ou seja, a própria sociedade. O trabalho é o potencial estruturador da existência humana e mediador primordial da relação com o mundo e com os outros.

Porém, dependendo das condições na qual ele é realizado e a organização em que é executado, o trabalho pode retirar a humanidade do homem, o aproximando de uma máquina, o alienando de si mesmo e o reduzindo a sua dimensão fisiológica, onde o trabalho é desempenhado para a mera sobrevivência. Nestas condições, a dimensão moral pouco aparece e salta a contradição entre os interesses de cada indivíduo e os interesses coletivos, públicos.

Diante da urgência da construção de uma consciência que inclua o coletivo, parece ser fundamental integrar às questões já feitas, reflexões acerca das consequências que cada carreira produz para o coletivo. Você já pensou de que forma a sua carreira afeta a comunidade com a qual você se relaciona? Que impacto seu trabalho produz? De que forma contribui para a construção da humanidade?

O processo de orientação profissional em grupo pode ser um meio muito interessante e rico para esta construção. Na modalidade grupal, o processo possibilita que a escolha e o desenvolvimento de um projeto sejam realizados num contexto relacional no qual é facilitada a visão global da situação em que seus participantes estão inseridos, assim como o autoquestionamento de si e de seus planos.

Ao serem discutidas coletivamente, crenças, ideias e planos anteriormente concebidos individualmente dão espaço para dúvidas, para a percepção de outras possibilidades e para experiências a partir de novas perspectivas.

A experiência compartilhada, produzida através do encontro com a multiplicidade, pluralidade e diversidade, confere ao grupo um grande potencial criativo e o permite desempenhar o papel de intermediário entre uma realidade passada, concluída e outra futura, a ser construída.

O grupo se organiza como uma micro sociedade na qual suas relações e processos se assemelham às condições sociais concretas. O grupo pode se tornar um espaço protegido no qual há possibilidade de “experimentação de papeis futuros; a instrumentação para construção de projetos profissionais contextualizados sócio-historicamente e compartilhados pelas relações grupais” (3). Nesse espaço o sujeito tem a possibilidade de delinear novos vínculos consigo mesmo e com o outro.

Assim, a orientação profissional em grupo pode favorecer a emergência de uma moral e crítica acerca do mundo do trabalho e da participação de cada indivíduo na economia e na política. Isso possibilita que os indivíduos entrem no mercado de trabalho conscientes de sua exploração inerente, podendo assumir uma responsabilidade moral, tanto em sua escolha quanto em sua atuação.

Referências:

  1. ENGELS, Marx K e Friedrich. A Ideologia Alemã. 1ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009.
  2. Cadernos Zygmunt Bauman ISSN 2236–4099, v 1, n. 2 (2011), p. 35–47, Jul/2011.
  3. RIBEIRO, M. Afonso. op.cit, p.52. 13 LEHMAN, Y. O processo de orientação profissional como um Holding na adolescência. Serviço de Orientação Profissional — Instituto de Psicologia — USP, p.3 14 Ibidem, p.2.

Camila M Fabre é psicóloga formada pela UNESP, com Aperfeiçoamento em Orientação Profissional e de Carreira pela USP e especialização em Psicologia Transpessoal pela ALUBRAT. Iniciou sua carreira na área de Recursos Humanos. Hoje atua como psicoterapeuta e orientadora profissional e de carreira sendo também sócia-fundadora da TRID — Trabalho e Identidade. Desenvolve um trabalho sensível, aliando técnicas corporais, artísticas e lúdicas, sempre considerando o desenvolvimento integral do ser humano.

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