"Fazer ou não fazer, eis a questão?" - Um ensaio sobre a procrastinação

Fonte da Imagem: desconhecida
Fonte da Imagem: desconhecida

Eu devia ter escrito este texto há 2 semanas.

O tema me foi proposto e eu gostei, não apenas por me identificar facilmente com esse tipo de caso, mas por estar cansada da velha ladainha do “Gerencie seu tempo!”.

Acho que a fórmula não é novidade para quase ninguém: estabelecer prioridades, separar o que é urgente do que é importante, posicionar o importante na agenda antes do urgente, reservar uma brecha na agenda para imprevistos e atividades rotineiras menos significativas (garantindo e ao mesmo tempo limitando o tempo dedicado às mídias sociais e outras distrações cotidianas), estabelecer metas, planejar seu dia na noite anterior, e por aí vai…

Hora ou outra as pautas do uso do tempo e da produtividade vêm à tona: seja no programa de tv dedicado às donas de casa ou no planejamento estratégico de pessoas em grandes organizações, na notinha no caderno do jardim da infância ou nos aplicativos de agenda de estudo dos vestibulandos.

Há um sem fim de livros, treinamentos e tutoriais sobre organização, hábitos altamente eficazes, gerenciamento inteligente de tempo e pedras de vários tamanhos que podem te ensinar o que fazer para parar de vez de postergar suas tarefas e começar a funcionar de forma muito mais produtiva e com mais qualidade de vida.

Já participei de alguns treinamentos com este mote e lhes digo: não é que não funcionem, se aplicados, funcionam conforme a cartilha. Mas digo também: há algo mais profundo do que o ensinado na cartilha que nos impede de aplicar a fórmula mágica nas nossas escolhas do dia a dia.

Pelos índices de sucesso (ou no caso, fracasso) desse tipo de treinamento - eles mesmos dizem que mais de 80% das pessoas não colocam a teoria em prática - não consigo acreditar que se trate de uma dificuldade individual de assimilação ou resistência a uma tarefa específica. Parece, nesta análise leiga, uma incidência que varia em termos de frequência, força, valorização, mas que a despeito destas variações, talvez possa ser considerada uma tendência generalizada.

Eu procrastino.

Tu procrastinas.

Eles procrastinam.

Nós procrastinamos.

Não faço aqui uma apologia ao “empurra com a barriga” ou um resgate desvirtuado do ócio criativo. Acredito que nenhum processo produtivo pode ser destituído de disciplina, esforço e dedicação. Porém, proclamar que com ordem e planejamento todo e qualquer progresso almejado é possível, é cair numa lógica simplória e utilitarista.

Tentando entender essa nossa tendência à procrastinação e buscar formas menos caricatas de melhorarmos nosso processo criativo e produtivo, penso em alguns fatores que devem ser considerados:

  1. O ritmo de trabalho pessoal - reflita se você trabalha com mais disposição de manhã, de tarde ou de noite, no silêncio ou com vários estímulos, sozinho ou acompanhado, com folga ou sob pressão. O impacto que biorítmo, hábitos e preferências tem sobre nossa força, atenção, foco, agilidade e clareza cognitiva já foram comprovados por diversos experimentos neuropsíquicos. Conhecer o seu ritmo começa a lhe dar a chance de se adaptar melhor às contingências exteriores e resolver com menos desgastes as tarefas que lhe são atribuídas.
  2. O ritmo de trabalho do ambiente - observe como é na sua família, na sua escola, no seu trabalho. Estar atarefado e sempre correndo é considerado normal na sua casa? Seus professores dividem com você o planejamento anual das aulas? Seus clientes querem tudo para ontem? Alguns pais colocam limites pra tudo, enquanto outros não cobram nem que se escove os dentes. Há escolas onde se ensina desde cedo que há hora e lugar para cada coisa, treinando nossas crianças para um modelo de organização mais padronizado. E há escolas onde a construção do conhecimento nem sempre pressupõe uma ordem e um fim pré-definidos. Existem empresas em que se deve produzir conforme um determinado plano de metas, sentado em uma determinada baia e dentro de uma determinada carga horária. E existem empresas que trabalham por projeto, sem definir o planejamento da produção, o lugar em que você realizará suas funções, ou o horário em que atuará, mas cobrarão apenas o resultado final do seu trabalho. Alguns desses ambientes são passíveis de escolha, outros não, claro. Na medida do possível, o ideal é que você possa ir direcionando suas escolhas para estar em um ambiente compatível com o seu ritmo pessoal, mas mesmo em situações em que não temos tanta liberdade de escolha, conhecer o seu ritmo e o ritmo ao seu redor lhe dá melhores chances de saber quais questões são inegociáveis e em quais você consegue abrir concessões para equilibrar as tendências externas e internas.
  3. O tipo de tarefa - é claro que sempre haverão coisas que não gostamos de fazer e por isso ficamos numa eterna enrolação diante da obrigação de cumpri-las. Mas mesmo nas questões mais chatas, o valor que atribuímos às mesmas faz diferença na nossa motivação para realizá-las. De acordo com o significado que adquirem, as tarefas mudam de intensidade e cor, por isso, entender resultados de curto, médio e longo prazo nos possibilita vislumbrar ganhos secundários em tarefas inicialmente menos atrativas, bem como nos dá a chance de buscar equilibrar a agenda com um pouco de satisfações mais imediatas, incluindo no nosso dia a dia aquelas atividades que nos dão prazer do começo ao fim.

Considerando esses fatores, fica mais fácil assumir a responsabilidade pelas consequências de nossas escolhas e entender o que é possível mudar, o que precisamos aceitar e o que podemos aproveitar, dentre as nossas características, para termos um dia a dia satisfatório.

Então, da próxima vez que você passar o final de semana assistindo Netflix mesmo tendo um deadline importante na segunda, não me venha com desculpinhas! Assuma o procrastinador que existe em você e tome-o como um sinal de que você deve mexer em um dos três pilares acima.

Marina Bergamaschi fez Psicologia, Licenciatura e Especialização em Orientação Profissional e de Carreira, todos na USP. Atuou em consultório particular, escola, hospitais, consultorias e empresas nacionais e internacionais. A vivência clínica em terapia Junguiana e Coaching e a experiência organizacional em Recursos Humanos, proporcionaram um olhar humanista que se uniu à paixão por escrever para criar este e outros textos.

Receba conteúdo exclusivo

 

(11) 9 9961-2333

 

| Alphaville | Berrini | Granja Viana | Higienópolis | Pinheiros | Sumaré | Vila Madalena | Vila Olímpia

São Paulo - SP

 

Empresa registrada no CRP/SP: 06/5671/J