Ser adolescente ou a tarefa de adultecer

Fonte da Imagem: desconhecida
Fonte da Imagem: desconhecida

Para falarmos da adolescência precisamos, primeiro, definir o que ela significa, porém, isso não é tarefa fácil visto a variedade de significados que possui. A compreensão mais usual refere-se a esta condição como sendo um período da vida iniciado ao se completar o desenvolvimento físico do indivíduo, quando há a perda do corpo infantil e as transformações demarcadas pelo que se chama puberdade. A partir daí, decorrem uma série de mudanças psicológicas e sociais que processam a passagem de uma condição social de dependência a uma outra mais ampla, de maior autonomia. No capitalismo, autonomia se refere à emancipação financeira, ou seja, a condição adulta é conquistada através da inserção profissional e econômica.

O que vemos, porém, é que o alcance desta tal condição adulta não se dá da mesma forma para todos os grupos. Não podemos, de forma alguma, universalizar o sentido da adolescência. Inclusive, diversos autores utilizam esta palavra no plural: adolescências.

Considerando a classe burguesa e o contexto atual, assumir a condição adulta se tornou algo diferente, comparado às gerações anteriores. Concluir uma faculdade não é mais garantia de inserção no mercado de trabalho, nem de boa remuneração para ninguém. O mercado cobra pós-graduação, MBA, especializações, o domínio de línguas, experiência profissional e ainda faz tantas outras exigências. Isso levou ao prolongamento da condição adolescente dos jovens desta classe, os quais permanecem no lar paterno por muito mais tempo, postergam o matrimônio e vivem a condição, pelo olhar social, de pseudoadultos.

Tal condição é inversa ao considerarmos os meninos e meninas que, com doze anos, cuidam da casa, dos irmãos e até trabalham. São forçados a saltar às pressas para a condição adulta sem ter direito à adolescência. Submetem-se a subempregos e condições precárias de vida como necessidade de inserção no mercado de trabalho. Vivem assim, na margem da economia e dos direitos sociais. A adolescência fica mais uma vez evidente como sendo uma construção social, não como uma fase natural da vida e, atende à demanda de uma classe social específica.

Pois bem, se o ponto em comum é o alcance da condição adulta e se esta se dá por meio da conquista da autonomia, como é que as famílias e as escolas estão preparando seus jovens para isso?

O que observo, nos relatos clínicos, nos trabalhos com escolas e leituras, é que os esforços de todas as instituições são direcionados à inserção do jovem no mercado. No caso das instituições que atendem a classe burguesa, a aprovação no vestibular é o lema. Já, as que atendem as classes populares, o tema é a empregabilidade. Acredito que isso não seja novidade para ninguém, mas fato é que confirma o que já foi dito na parte superior deste texto: no capitalismo, autonomia se refere à inserção no mercado de trabalho.

Porém, como psicóloga e como alguém que se preocupa com o desenvolvimento integral do ser humano, fico aqui me perguntando: e a formação política, o desenvolvimento psicossocial e emocional do indivíduo, como se dá? Como será que esse jovem fica diante de tamanho abandono? Talvez, ele se torne mesmo muito hábil para a realização de uma prova de vestibular ou aumente a sua empregabilidade, mas do que adianta isso se antes não souber quem é, o que quer e para onde ir? É suficiente aumentar o seu valor para o mercado, mas mantê-lo alienado de si? De fato, promovemos que sejam sujeitos autônomos, apropriados de sua identidade e capazes de fazer escolhas na vida?

Justamente esta reflexão é o que me leva a defender a importância da inserção da Orientação Profissional nas escolas e na comunidade como um todo. Muitos a reduzem a um processo que tem, como único objetivo, ajudar pessoas a escolherem o seu curso universitário. Nós (e aqui falo enquanto TRID) compreendemos que a abordagem necessita ser profunda e mais ampla: não falamos, somente, da escolha de um curso ou trabalho, mas da construção de um projeto de vida. Compreendemos a juventude ultrapassando a perspectiva mercadológica. O jovem não pode ser considerado, somente, a partir do seu mero valor produtivo, econômico. São necessárias ações e cuidados que o ajudem a elaborar e se apropriar da sua identidade. E para que assumam condição de sujeitos autônomos precisam aprender a posicionar-se como um “eu sou” e a fazer escolhas a partir deste lugar, sendo esta uma tarefa para a vida toda.

Camila M Fabre é psicóloga formada pela UNESP, com Aperfeiçoamento em Orientação Profissional e de Carreira pela USP e especialização em Psicologia Transpessoal pela ALUBRAT. Iniciou sua carreira na área de Recursos Humanos. Hoje atua como psicoterapeuta e orientadora profissional e de carreira sendo também sócia-fundadora da TRID — Trabalho e Identidade. Desenvolve um trabalho sensível, aliando técnicas corporais, artísticas e lúdicas, sempre considerando o desenvolvimento integral do ser humano.

Receba conteúdo exclusivo

 

(11) 9 5057-9410

 

Alphaville | Berrini | Granja Viana

Higienópolis | Pinheiros | Vila Madalena

São Paulo - SP

 

Empresa registrada no CRP/SP: 06/5671/J