Sobre estrelas e constelações: como você trabalha?

Vivemos um momento de transição do laço social, da forma como nos relacionamos com o mundo e com os outros: o tal mundo líquido moderno com suas certezas temporáriase uma organização horizontal avança sobre uma organização de mundo vertical e hierarquizada (aquela em que manda quem pode, obedece quem tem juízo; aquela em que te respeito por você ocupar uma posição superior a mim; aquela em que há normas muito claras de certo e errado). O momento é de coexistência destes modelos, com modos de vida muito bem definidos.

De um lado, temos a estabilidade em curto-circuito nas formas de organização vertical, a ser observada nos mais diversos campos de convivência: na política, quando a força das alianças se revela mais eficaz do que as aparentes cadeiras de poder às quais correspondem uma superioridade hierárquica; nas relações sociais, onde a sustentabilidade perde lugar para interações mais breves (e não por isso menos intensas); nas redes sociais (que souberam capturar o movimento de mudança dos laços), proporcionando o compartilhamento de flashes de vida; na educação, quando se vê falido um modelo que não provoca um saber-fazer diante das surpresas e imprevisibilidade que marcam o modo de organização do mundo; na economia compartilhada, quando a posse de objetos (carros, bicicletas) dá lugar ao uso temporário dos mesmos ou se observa o retorno do compartilhamento de viagens através de aplicativos; líderes insistindo em formas de gestão que até pouco tempo atrás funcionavam e agora não mais.

Olhando com lupa a questão da construção de carreira em um cenário de transição como este, vejo refletido o curto circuito que aparece como crise naquelas pessoas que se incomodam com sua vida atual, que se sentem um tanto fora-de-lugar em estruturas de saberes e poderes mais hierarquizados, mas carentes ainda de recursos para se descolarem desta forma de organização, majoritariamente por questões econômicas.

Uma vantagem desta organização anterior e verticalizada é que ela dispõe de sentidos pré-fixados dentre os quais você pode escolher o que melhor tampona o buraco da angústia: faça o que você ama; seja senhor do seu tempo; ascenda na empresa em que trabalha; faça um MBA; encontre sua missão de vida e conecte-a com seu trabalho. São sentidos de prateleira. Estão ali. É pegar um e se organizar numa lista de to do’s para alcançar o resutado esperado.

Esta nova organização, que convive com a anterior e que já é real e leve para quem encontrou seu modo de nela viver, dissolve estes sentidos pré-fixados e escancara a surpresa. A vantagem angustiante desta forma de laço social é que ao não dispor de pré-fixações, abre caminho para o potencial criativo. Repito: é uma vantagem com potencial angustiante, que gera a tal sensação de desajuste em quem já percebeu que algo diferente está acontecendo, mas ainda não encontrou sua forma de navegar nestes mares.

O sentido de carreira na organização anterior é um sentido-estrela. Vire estrela. Você pode! Só depende de você. O sentido de carreira nesta nova organização é um sentido-constelação. Opera com a plasticidade do desejo, submetido, claro, a um padrão de racionalidade econômica. Não oferece muita clareza do que vem a seguir, mas abre para que você ocupe lugares diferentes, com ocupações diferentes.

Educar para ser estrela implica em competição. Ou na tal meritocracia: “Faça e ganhe”, “Seu esforço será recompensado”. Educar para ser constelação implica em responsabilidade e invenção. Implica em ensinar a mudar de posição subjetiva diante das certezas temporárias: reagir rápido, mudar rápido, agir sem necessariamente compreender. É estar pronto para inventar. Seu esforço será reconhecido se ressoar nas pessoas ao seu redor: não que esteja certo, não que esteja errado, mas me engajo porque algo nisso que você faz ressoa em mim. E para fazer isso é necessário estar atento ao outro, se desapegar de posições em que se sente confortável, muitas vezes.

Não é à toa que trabalhar por projetos faz cada vez mais sentido para um grande número de pessoas e organizações. Este é um exemplo de carreira-constelação. A forma como as start-ups se fundam, também.

Preparar-se para ser estrela é caminhar para as limitações que toda certeza traz consigo: de empregabilidade, de felicidades. É a forma de organização predominante nos planos de carreira ainda existentes.

Preparar-se para ocupar um lugar na constelação é ampliar o campo de possibilidades e o de sua responsabilidade: usar de seus vários talentos, explorar atividades diferentes, errar e mudar rápido, observar e criar seu espaço numa estrutura que se move quando você se move, que não é eterna e que, mesmo que fosse, não o faria ter certeza de querer ficar.

Lembre-se 1: é a falta de sentido que nos move. O sentido está nesta busca — que precisa ser inventada a partir da sua “esquisitice”. E sua esquisitice pode ser adequada para estruturas hierarquizadas. Não tem problema, desde que seja a sua esquisitice. Olhe com critério programas que vendem a liberdade como mercadoria e tentam fixar um novo sentido (me refiro aos que prescrevem o empreendedorismo como antibiótico de amplo espectro). Olhe com critério tentativas de categorização das gerações. Olhe com critério fórmulas de gestão de pessoas que descuidam do que não tem (e nunca terá) sentido.

Lembre-se 2: estamos na época do ressoar, mais do que do controlar. E então, por fim, um desafio: o que pretende inventar para você? O que deseja fundar no mundo a partir da sua esquisitice?

Por Adriana Ricci. Sócia-fundadora da TRID — Trabalho e Identidade. Psicóloga especializada em Orientação Profissional e de Carreira pela USP, Coach pela SBC e Psicanalista pelo IPLA. Possui sólida experiência em Recursos Humanos, sempre ligada aos processos de vanguarda em desenvolvimento e gestão de pessoas de grandes empresas multinacionais, além de atendimento particular em orientação profissional e de carreira.

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