Encare sua angústia

Fonte da Imagem: desconhecida
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A palavra angústia vem do latim — angor, que quer dizer ‘angustura, estreitamento, apertamento’. A angústia parece comum a você? Segundo a psicanálise, “a angústia fundamental é a angústia da castração”: a reação do ego a uma situação de ameaça que possa levar a perda ou ao distanciamento daquilo que se deseja: um amor, um emprego, uma ideia, uma viagem.

Vivemos tempos em que as construções sociais são imediatistas, onde a tecnologia e a velocidade na qual informações e tarefas são processadas tornam o novo obsoleto em um curto espaço de tempo. O mundo se resolve em um clique e é acessado, literalmente, sem que precisemos levantar do sofá. Aqui, tarefas que levem um pouco mais do que alguns segundos, se tornam uma espera enfadonha e tensa.

Estes são tempos em que o capitalismo transformou o mundo em uma grande prateleira da qual consumimos todo tipo de souvenir: amor, orgasmo, felicidade, reconhecimento, contato, sucesso, saúde, cultura, religião e ideologias. Nessa prateleira há do básico ao supérfluo, resultados instantâneos e uma porção de soluções mágicas para todo tipo de demanda. Aqui, tudo também é descartável: sentimentos, celulares e pessoas. Basta ameaçar a plena satisfação daquele que está “consumindo”.

Toda e qualquer solução parece estar ao alcance das mãos, por isso, viver e sustentar a angústia parece ser uma tarefa descabida, impossível, assustadora e absolutamente des-ne-ces-sá-ria. Afinal, para que viver a angústia diante de tamanha variedade de souvenirs? — Compre, algum deles há de solucioná-la! Esta é uma das máximas dos tempos de hoje, não é?

Pois bem, se a angústia não se faz necessária como explicar a sua permanência? Como compreender que possa haver, de um lado, a oferta de incontáveis possibilidades com soluções e, de outro, a insistência do aperto e do vazio ecoando no peito? Não lhe soa um tanto contraditório? A mim soa.

Para começar, vejo que grande parte das possibilidades ofertadas seguem a regra das “construções sociais imediatistas”: são soluções tão instantâneas quanto descartáveis. São incapazes de sustentar o que prometem por muito tempo. São remédios que aliviam, mas que não solucionam a depressão. São dietas que emagrecem dez quilos em um mês e que engordam vinte em dois. São sonhos que soam bonitos e palpáveis no discurso do coach ou do chefe — “escolha um trabalho que você ame”, mas que nunca se realizam (leia mais em Quatro perguntas essenciais para quem busca ajuda profissional na carreira). São inúmeras promessas de satisfação de desejos e como num passe de mágica, livres da angústia.

Tudo isso se inicia com um bom número de pedidos irrealizáveis e então, o mercado devolve uma porção de ilusões para atendê-los. Digo irrealizáveis pois são construídos na ânsia de obter o idílico paraíso, o lugar da plena satisfação, livre da falta e do desprazer. O que muitos não percebem é que a satisfação desejada nunca chega e a angústia cresce de maneira desmesurada em função das consequentes frustrações.

A solução então é abandonar o desejo ou se entregar a frustração? Talvez, nenhum dos dois, mas há de se considerar o caminho necessário para que o desejo possa ser transportado para o mundo real, para que ele não seja um mero devaneio, uma fantasia ou um sonho.

O mundo real é o que há entre o desejo e a sua realização. Ele é composto de Outros: outros sujeitos com outros desejos. Nele, há leis, limites, impossibilidades, conflitos e, por tudo isso, angústia. Isso é fato. Ao aceitá-lo aceita-se que não existe a garantia do pleno, do sem falta, do sem falha. Não existe a ausência absoluta da angústia: a crise e a angústia são inerentes ao humano.

O caminho parece ser a relativização do absoluto; abrir mão do paraíso e se dispor a negociar com o mundo real. Isso significa transformar as estratégias alienantes (estas que vemos por aí, que mais parecem mágica ou milagre e que circulam via mercado, via chefe, via família, via si próprio) em um trabalho sustentável, realizável, o qual considera o seu desejo e integra os limites do mundo real.

Talvez, o emprego que você idealiza não exista exatamente da forma como imagina, mas se aceitar compreender o que o impede, pode ser que encontre formas para transpor os obstáculos ou se disponha para os sacrifícios necessários e crie um caminho singular para a sua realização.

Camila M Fabre é psicóloga formada pela UNESP, com Aperfeiçoamento em Orientação Profissional e de Carreira pela USP e especialização em Psicologia Transpessoal pela ALUBRAT. Iniciou sua carreira na área de Recursos Humanos. Hoje atua como psicoterapeuta e orientadora profissional e de carreira sendo também sócia-fundadora da TRID — Trabalho e Identidade. Desenvolve um trabalho sensível, aliando técnicas corporais, artísticas e lúdicas, sempre considerando o desenvolvimento integral do ser humano.

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