Verdades mentirosas sobre carreira que uma crise econômica permite desconstruir

Fonte: http://www.amm34.com
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Dos meus incômodos com alguns discursos descolados (1)presentes na lista de auto-ajuda para preocupados com sua vida profissional, divido com vocês três, no formato de supostas verdades ou verdades mentirosas sobre carreira, que têm sua fragilidade mais facilmente exposta num cenário de crise econômica.

Não é que seja a crise que faz com que deixem de ser verdade: não são verdades, a priori. São, no fundo, discursos convenientes a uma lógica de mercado, que uma crise, entendida como desregulação, permite questionar e expõe alguns furos que podem passar desapercebidos num cenário econômico favorável.

VOCÊ É RESPONSÁVEL PELO SEU SUCESSO

E, consequentemente, pelo seu fracasso. Quem nunca ouviu esta frase e com ela não se perguntou: o que eu estou fazendo de errado? Ok. Você tem sim seu pedaço de responsabilidade sobre sua carreira e é ótimo quando você se dá conta disso e consegue criar formas de cuidado.

Mas vamos lá: sempre que você pensa em trabalho (SEMPRE), você abandona o campo individual e precisa, necessariamente, ampliar isso para o campo social. A partir do momento em que você troca o seu trabalho por um montante de dinheiro, é impossível não participar do jogo de regulação dos empregos pelo mercado: desregula lá, desregula aqui.

Não tem como fugir: da pessoa mais rica do mundo até a mais miserável, o que se passa no campo econômico impacta o que acontece com você e na crise isso fica muito fácil de perceber. Do trabalhador assalariado ao empreendedor, o mercado regula seu sucesso desde a definição do que é sucesso e fracasso, até o resultado do seu orçamento para melhor ou pior. Também regula a sua inserção e exclusão neste mercado, privilegiando as necessidades do momento.

Cortes de pessoal por baixa de vendas, mudança de sedes produtivas para outras cidades/países, mudança de escopo nas atividades, desmobilização de projetos, mudança de acionistas, quantidade de vagas necessárias para cuidar do que você sonhou em cuidar: tudo isso limita a sua intervenção no chamado sucesso profissional. É um delírio desconsiderar esta dinâmica, assim como é delírio acreditar que toda a responsabilidade é sua.

Mas isso acontece e então, o que você faz? Cursos! Capacitação! Preciso correr atrás daquela competência que me disseram que me falta para a promoção, preciso aprender a fazer isso que está fazendo com que as pessoas estejam empregadas.

Assim, caminhamos para a segunda verdade mentirosa:

INVESTIR EM QUALIFICAÇÃO É GARANTIA DE EMPREGO

O primeiro ponto a desconstruir aqui é que não há garantia de emprego. De novo, se o que você sabe fazer não casa com necessidades atuais do mercado, não há uma via garantida de inserção no mercado de trabalho, em constante transformação. Alguém aí ainda é empregado por possuir curso de datilografia?

O ponto da qualificação expõe uma regra verdadeira: de fato, à medida em que não há emprego para todos, aqueles que oferecem mais valor para o empregador através de seus saberes e habilidades, saem na frente. Isso parece irreversível. Mas o que dizer das vagas de trabalho que pedem, por exemplo, inglês, sendo que, na prática, não se trata de uma necessidade real para o desenvolvimento das atividades para a qual se está contratando? Ou, como explicar o fato de você cumprir com todos os requisitos de uma posição e não ser o escolhido, por exemplo, porque seu concorrente tinha mais “fit” com a posição ou com a cultura da empresa?

Desde que questões mais subjetivas passaram a fazer parte dos requisitos do trabalho (pro-atividade, mão na massa, influência, liderança, criatividade, autonomia, dentre tantas outras) abriu-se campo para ampliar a responsabilização do indivíduo pela sua empregabilidade, além das habilidades e conhecimentos possíveis de aprendizado via qualificação: você tem todas as competências técnicas de que necessitamos, mas seu “estilo” não é compatível com nossa cultura.

FAÇA O QUE VOCÊ AMA…

contanto que haja demanda pelo que você ama fazer. Uma metodologia bastante comum em processos de orientação de carreira parte da metáfora de pensar a si mesmo como um negócio. E isso funciona, dada a dinâmica de regulação econômica do trabalho que está por trás de todos os pontos tratados neste texto. Você ama pintar, mas daí a ganhar dinheiro com isso temos necessariamente aquela conversinha com a demanda, que já falamos aqui. E aí podem entrar em cena outras habilidades que não são tão assim apaixonantes para você: negociar valores, exposições, etc.

Pensar um projeto profissional que parta das suas paixões é fundamental. E fundamental porque é o que dá possibilidades de uma sustentação minimamente saudável do seu projeto. Mas não basta. Alguma negociação será necessária para que sua paixão vire um trabalho rentável. É o ponto de partida de uma construção pessoal e fundadora de sua posição no mundo e no mercado de trabalho.

Fazer puramente aquilo que se ama é uma condição bastante restrita e conquistada por alguns poucos mortais. Vamos lembrar ainda, que até pouco tempo atrás, não era “necessário” ser feliz no trabalho. Converse com seus pais ou seus tios mais velhos: trabalho era trabalho. Felicidade era outra coisa! Departamentos diferentes!

A ideia aqui não foi deixar ninguém desesperado. Lembre-se! Você já vive nessa dinâmica, provavelmente sem se dar conta disso. Entender como as relações de trabalho se organizam em uma lógica que não é puramente individual te permite “pegar mais leve” com você e sofrer menos quando as coisas derem errado. Reconhecer os limites de sua influência é necessário: para as coisas boas e para as coisas ruins que te acontecem.

Construir e se pensar criativamente num projeto profissional que respeite sua identidade (limites e potencialidades) é uma tarefa complexa e possível. Ter clareza das regras do contexto econômico e social em que você pensa o seu projeto não é um ponto a se ignorar nesta empreitada.Lembre-se disso e bom trabalho!

(1) Descolados no sentido a) da sua proposta cool e no sentido b) de serem delirantes e apartados de aspectos estruturais da realidade econômica.

Adriana Ricci é sócia-fundadora da TRID- Trabalho e Identidade. Psicóloga especializada em Orientação Profissional e de Carreira pela USP, Coach pela SBC e Psicanalista pelo IPLA. Possui sólida experiência em Recursos Humanos, sempre ligada aos processos de vanguarda em desenvolvimento e gestão de pessoas de grandes empresas multinacionais, além de atendimento particular em orientação profissional e de carreira e psicanálise.

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