O lado B do empreendedorismo

Imagem: Folha Vitoria
Imagem: Folha Vitoria

O sentido atribuído ao trabalho varia, sem dúvida, de acordo com a experiência individual. Porém, considerando os sujeitos sociais que somos, pertencentes a uma determinada sociedade, regulada por determinados valores e princípios, se torna imprescindível considerar a influência do meio social na determinação do sentido individual dado ao trabalho.

A partir da década de 90, buscando competitividade no mercado internacional, foi realizada uma grande reestruturação produtiva no Brasil. Foram adotadas estratégias como a terceirização da mão de obra, subcontratação, renovação tecnológica, reorganização de processos produtivos e o enxugamento do quadro de empregados.

Como consequência, o vínculo empregatício foi fragilizado e parte da classe trabalhadora sofreu uma sequência de perdas, como a diminuição da oferta de emprego, o aumento de contratos temporários, jornadas de trabalho extensas e a intensa terceirização que levou a perda de direitos como descanso remunerado, férias, licenças de saúde, aposentadoria, entre outros.

A estabilidade que a geração Baby Boomer buscava através de trajetórias profissionais construídas em um único emprego, durante a vida toda, foi por água abaixo. Nesse cenário, motivados pela dificuldade em encontrar emprego e/ou necessidade de complementar a renda familiar, muitos empreendedores surgiram, a maioria se configurando mais como uma nova semi-marginalização social do que como um novo empresariado.

Em paralelo, o enfraquecimento das relações de trabalho rompeu com o “senso de fidelidade”, quase que vitalícia, que os trabalhadores tinham com seus empregos. Quem é que não tem um pai ou um avô que trabalhou a vida toda em uma única empresa e fala sobre isso com um enorme orgulho? Hoje, casos como esses são raríssimos e até vistos com maus olhos pelo mercado.

A oferta da estabilidade foi substituída pelo forte incentivo à cultura empreendedora no Brasil. Inclusive, vários descrevem estecenário como uma possibilidade de libertação da noção rígida de emprego. Há a ampla difusão da ideia de que trabalhar por conta própria é o melhor caminho para o alcance de suas metas pessoais e benefícios, como: maior independência, liberdade para tomar decisões sobre os negócios e prestar contas apenas para si. Há também um forte investimento na crença de que o sucesso almejado, antes vindo como recompensa de anos de dedicação e fidelidade, poderia agora ser alcançado de forma muito mais rápida e mediante, apenas, esforço individual. Ou seja, o risco gerado pela insegurança nas relações trabalhistas se transformou em expressão de um campo de oportunidades para que os indivíduos se autocompreendam como empresários de si mesmos.

Este conceito de empreendedor é disseminado como sendo o perfil revolucionário neoliberal de sujeito: ousado, competitivo, de caráter flexível e moldável, com um elevado nível de autoestima e viciado no sucesso individual. Aos olhos do sistema, são o exemplo do triunfo da economia de mercado.

Do que nem todos se dão conta é que a glamourização do empreendedorismo maquia o que está por trás desta ideologia. Enquanto parte da lógica neoliberal, a qual prioriza os interesses do capital, passa a superestimular a ambição e a iniciativa individual, desviando a atenção do papel que caberia ao estado. Mais, passa a culpabilizar o indivíduo pela sua própria situação, seja ela de sucesso ou fracasso. Ou seja, se você não é bem remunerado ou não tem o sucesso almejado é porque não tem capacitação ou não se esforçou o suficiente.

Logo, se empreender faz parte dos seus planos, talvez seja interessante desmistificar o glamour que isso envolve. Em dezembro de 2015, o Sebrae realizou uma pesquisa ouvindo 6.121 empresas de todo o País. O resultado geral demonstrou que cerca de 57% dos empreendedores deixariam o negócio para se tornar empregados com vínculo CLT. Destes, 38% o fariam para receber a mesma renda, 19% fariam a troca só caso ganhassem 50% a mais. Por outro lado, 38% não trocariam nem se fosse para ganhar 50% a mais; 4% não souberam responder e 2% responderam que já tinham carteira assinada.

O que os resultados acima demonstram, ao apontarem que mais da metade do público pesquisado trocaria o empreendimento por um emprego com carteira assinada? Empreender seria mesmo um caminho certo e mais fácil para o sucesso? Ou para a liberdade? Empreender significa, de fato, ser dono do próprio tempo, trabalhar menos e com maior prazer?

Pense: por um lado, abrir mão do emprego lhe livra de ter que responder para um chefe, mas lhe obriga a ter que responder a todos seus clientes. Você “ganha a liberdade” para decidir pelo próprio negócio, mas sofre as consequências (positivas e negativas) de tudo que decide. Trabalha o quanto quiser, mas também ganha o quanto trabalhar (e muitas vezes, trabalha mais do que ganha). Deixa de estar submisso às regras de uma empresa, mas permanece submisso às leis do mercado.

Diria que o empreendedorismo, embora vista uma roupagem inovadora e atraente, traz pouca coisa nova, na realidade. A liberdade que a ideologia empreendedora vende é questionável e a ideia de que esta seja uma forma alternativa de trabalho se confirma em partes. A verdade é que todos, empreendedores ou empregados, continuam fazendo parte do mesmo sistema, operando e estando submissos às mesmas regras que regulam o mercado. Se comparados, ambos os lados têm suas vantagens e desvantagens e se couber a você escolher o seu caminho, considere estas possibilidades de forma mais real, sem tantas ilusões.

Camila M Fabre é psicóloga formada pela UNESP, com Aperfeiçoamento em Orientação Profissional e de Carreira pela USP e especialização em Psicologia Transpessoal pela ALUBRAT. Iniciou sua carreira na área de Recursos Humanos. Hoje atua como psicoterapeuta e orientadora profissional e de carreira sendo também sócia-fundadora da TRID — Trabalho e Identidade. Desenvolve um trabalho sensível, aliando técnicas corporais, artísticas e lúdicas, sempre considerando o desenvolvimento integral do ser humano.

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Comments: 2
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