Hobby ou profissão?

Fonte imagem: http://helloperfect.com
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“Nossa, como você pinta bem! Porque não vende seus quadros?”

“Você coloca tanta paixão na dança, deveria ter sido bailarina!”

“Você cozinha tão bem, porque não abre um restaurante?”

“Você passa tantas horas escrevendo, nunca pensou em virar escritor profissional?”

“Você é mais feliz cuidando da sua horta do que da sua loja, não é? Deveria considerar isso.”

“Depois que você virou mãe você se realizou, né? Porque não vai trabalhar com crianças em vez de retomar o escritório?”

Se você já ouviu ou se perguntou alguma variante destas frases, é bem possível que tenha questionado sua rotina de trabalho, suas habilidades, sua qualidade de vida e satisfação profissional. É bem possível que tenha chegado a cogitar mudar de profissão e fazer de um hobby uma ocupação. E é bem possível que isso tenha, em algum grau, afetado sua identidade profissional. Isso é uma crise de identidade ou uma possibilidade real de ganho e realização? É o que vamos discutir neste texto.

Frequentemente nos percebemos tão envolvidos com determinada atividade que nos perguntamos se aquilo que foi iniciado como lazer não deveria ser, na realidade, nossa atividade principal.

Ainda crianças e adolescentes, e certamente por volta das primeiras escolhas profissionais, somos bastante estimulados a considerar aquilo que gostamos de fazer, que fazemos sem esforço e com alegria, na equação que nos levará a escolher uma formação profissional e um trabalho. Claro que damos um desconto para a fantasia onipotente da criança que deseja ser “Presidente do Mundo”, “Astronauta Intergaláctico”, “Cantor Internacional” e gradualmente vamos imputando mais realidade a estes desejos, trazendo dados de realidade: “Existe este cargo?”, “Quanto se estuda para alcançar este posto?”, “Você é mesmo bom neste quesito?”. Ainda assim, continuamos valorizando (e muito) a satisfação e o talento demonstrados nas primeiras fases da vida na hora de escolhermos e desenharmos um projeto profissional, sempre partindo das matérias preferidas, das atividades extraclasse favoritas e dos talentos “naturais”, ou seja, aquelas tarefas em que se tem melhor desempenho.

Não é à toa que o processo de orientação para a vida laboral e o mundo do trabalho foi inicialmente batizado de Orientação Vocacional e ainda hoje é bastante reconhecido por esta denominação (1). Vocação vem do latim Vocare, que quer dizer “chamado divino”, ou seja, nossos “dons”, aquilo que fomos predestinados (por Deus) a seguir como missão de vida. É claro que a modernidade distancia o termo do cunho religioso que o originou e enfatiza a liberdade de escolha individual, mas de alguma forma continuamos direcionando nossas ações profissionais pela facilidade que temos em realizá-las e o prazer que elas proporcionam a nós mesmos e aos outros.

Quando adultos, o mesmo raciocínio orienta nossas carreiras e crescimento profissional através de diplomas com Honra ao Mérito que premiam a alta performance e de Avaliações de Desempenho e de Potencial que utilizam a pontuação em competências técnicas e comportamentais para definir metas, promoções e realocações na estrutura organizacional.

Mas nem sempre aquilo em que somos bons é o que nos interessa, assim como nem sempre somos hábeis e competentes o suficiente naquilo que nos desperta o maior dos interesses. Alguns modelos de resolução de problemas propõem pensar na intersecção entre os conjuntos das principais variáveis envolvidas na questão para buscar um denominador comum. Podemos usar essa possibilidade, a título de exemplo, como uma ferramenta para definir o objeto de estudo ou trabalho, buscando a intersecção entre o conjunto das atividades que “Gosto de fazer”, com o conjunto das atividades que “Sou bom fazendo” e ainda com o conjunto de atividades que “O Mercado me pagaria para fazer”. Graficamente ficaria assim:

Gosto de Dançar, Fazer Massagem, Escrever e de Recursos Humanos em geral. Por um lado, até me pagariam para escrever em jornais, editoras, mas não sou boa o suficiente para me destacar neste mercado. Por outro lado, faço uma boa massagem, mas não vejo que o mercado esteja buscando tantos massagistas neste momento. Quanto à dança, também não vejo como uma ocupação tão requisitada no mercado de trabalho em geral e eu também não sou uma bailarina excepcionalmente boa para vencer esta escassez de oferta de empregos na área.

Sempre me destaquei em exatas, tenho facilidade para problemas lógicos, contas e fórmulas e sei o quanto o mercado valoriza Planilhas de Excell e Engenheiros, mas nunca foram disciplinas que realmente me motivaram e decepcionei meus professores quando decidi ir para a área de humanas. Desenvolver programas de computadores é algo extremamente requisitado atualmente, áreas desde o mercado financeiro até design de jogos e filmes utilizam este conhecimento, mas nem sei o suficiente sobre isso, nem gosto o suficiente para ir atrás de mais informação e prática.

Todos me dizem que organizo bem a casa, cuido de tudo com facilidade, mas não gosto muito destas atividades, faço por obrigação e também não vejo o mercado de trabalho valorizar esta função profissionalmente, por isso também não é um ramo de atuação sustentável para mim.

Por fim, ao longo da vida fui percebendo que minhas habilidades para escrever e resolver problemas, refletiam uma facilidade para comunicação e que isso me ajudava muito no relacionamento com outras pessoas. Que a dança e a massagem indicavam também uma facilidade em me aproximar pelo contato físico com os outros, em atividades mais vivenciais. Que organizar espaços e rotinas me ajudava a planejar e executar projetos. E que eu topava desenvolver um pouco melhor minhas parcas habilidades com o computador se fosse inspirada por otimizar meu tempo e o das pessoas e organizações que eu ajudava. Tudo isso junto foi me levando a atuar com desenvolvimento de pessoas em organizações: RH se localizava bem na intersecção das três esferas propostas acima.

Aquelas atividades que ficam isoladinhas na esfera do ‘Gostar’, essas, meus amigos, são atividades de lazer. Hobbies que dificilmente se tornarão uma profissão rentável e sustentável a longo prazo. Exigiriam muito treino, muito tempo, energia e dinheiro para que você atingisse um patamar de excelência, fosse reconhecido como profissional e conseguisse o retorno de todo este investimento. Não é que seja impossível, às vezes a motivação é tão alta que supera os desafios de mercado e de execução e concorrência, mas esteja ciente destes desafios.

Aquelas outras atividades que ficam sozinhas no cantinho do ‘Fazer bem’ são talentos. Provavelmente haverá uma certa pressão para que você os aproveite, desenvolva e ganhe dinheiro com eles, mas se não houver interesse genuíno da sua parte, será também um alto investimento para pouco retorno em termos de satisfação e realização. Às vezes a falta de motivação vem justamente da falta de desafio que estas atividades lhe propõem: se é tão natural e fácil, tão conhecido e corriqueiro, porque se dedicar a fazer? Se este for o caso, a longo prazo esta opção também não se torna sustentável e lá na frente (ou talvez hoje, na sua crise dos 30 ou 40) você pode acabar percebendo que nunca quis trabalhar de fato com isso.

As atividades separadas no conjunto d’O mercado quer’ são em geral ligadas àquelas profissões tidas como garantia de emprego e sucesso financeiro. Escolher um caminho profissional baseado no que dá dinheiro e estabilidade é tão ilusório quanto seguir o seu sonho infantil de ser Presidente do Mundo. O mercado e a economia mudam cada vez mais rapidamente e os profissionais mais requisitados se tornam dispensáveis a cada transformação da tecnologia ou moda de consumo. Além disso, se este é um conjunto de atividades com as quais você nem se identifica muito, nem se destaca muito, seu comprometimento, dedicação e facilidade para lidar com a concorrência deste requisitado mercado já começa desfavorecido. De novo: não que seja impossível. Se investir em uma destas profissões, você pode acabar se descobrindo capaz de superar suas dificuldades iniciais, utilizar outras habilidades para resolver aquilo que não sabe fazer tão bem, descobrir pequenas coisas que gosta no meio delas ou aprender a gostar de boa parte das tarefas relacionadas. Mas é inegável o esforço que este percurso irá demandar, então atente-se a isso.

Além dessas três situações, existem as intersecções intermediárias, que unem dois dos três conjuntos. Valem as dicas acima e vale ainda lembrar que se você já tem 2 de 3 aspectos a seu favor, os desafios serão um pouco mais suaves:

Se você faz bem algo que o mercado valoriza, mas não gosta de realizar estas atividades, provavelmente estes talentos serão ainda mais incentivados socialmente e a pressão para executar estas tarefas ou seguir esta profissão será ainda mais forte. Talvez valha uma tentativa de equilibrar sua vida de estudo e trabalho com atividades extras ou de lazer que satisfaçam mais seus gostos pessoais. Lembrando que a felicidade atrelada ao trabalho nem sempre foi imperativa como é hoje em dia… Trabalho pode ser só trabalho e diversão pode ser só diversão.

Se você gosta muito e faz muito bem algo que o mercado não valoriza, o seu desafio será buscar meios de tornar esta atividade mais atraente para o mercado, geralmente agregando tarefas como divulgação, marketing e vendas a esta atividade. Raras são as artes e ofícios que não demandem algum tipo de comunicação e negociação comercial para se tornarem sustentáveis. Você pode desenvolver estas habilidades ou buscar associações com pessoas ou instituições que façam isso por você. Seja como parte do seu próprio trabalho, seja como parceria ou contratação de terceiros, sempre se deve considerar os custos envolvidos (de tempo, energia, de divisão de lucros ou gastos com fornecedores), e isso deve entrar na equação do seu projeto profissional.

Se você gosta de atividades que o mercado valoriza, porém não tem habilidade natural para aquilo, a questão é muito treino, esforço e dedicação. Costuma ser o aspecto mais suscetível a desenvolvimento, já que a atitude, motivação e oportunidade já estão favoráveis e o que falta é ligado a conhecimento técnico e experiência prática. Claro que você encontrará concorrentes que tem mais facilidade para realizar a mesma coisa, mas isso faz parte do jogo e talvez seja para você até um desafio que o incentive a superar seus próprios limites. Cabe a você conhecer-se: você funciona bem sob pressão, com competitividade e desafios? Se sim, aposte e busque seus resultados. Caso contrário, é mais provável que você paralise diante da competição com pessoas que têm mais habilidade para a coisa e então talvez seja melhor você se apoiar em outras atividades, mais confortáveis e naturais para você. Quem vai te dizer dos seus limites é você mesmo, sempre!

Acho que vale ainda lembrar que apesar da ilustração reduzida ali de cima, cada uma destas esferas geralmente está repleta de atividades, desde as mais simples e corriqueiras (como lavar louça, passear com o cachorro ou caminhar), até as mais complexas e inusitadas (como fazer experimentos químicos ou construir o cenário e figurino de uma peça). Ao contrário do que prega o senso comum, de que cada pessoa possui um dom, um grande talento, uma missão pessoal, que deve nortear suas escolhas e caminhos pela vida, acredito que somos seres plurais, com influências bem diversas ao longo da vida e por isso temos vários interesses e habilidades e não apenas um/uma. Pelo que vejo no consultório, nas empresas em que trabalhei, nas consultorias que prestei e nas minhas relações pessoais, é muito mais comum encontrar pessoas inquietas e que ficam indecisas diante da diversidade de interesses, habilidades e ideias que têm, do que pessoas tranquilas e focadas, que sempre sonharam e demonstraram talento com uma única atividade por toda a vida.

Algumas pessoas equilibram estas tendências acomodando horas dedicadas ao trabalho e horas dedicadas ao lazer, mas não sentem a necessidades de integrar tudo em uma única profissão (o contador que é marceneiro nas horas vagas, por exemplo). Outras preferem buscar rotinas mais dinâmicas, com atividades que mudem recorrentemente e acabem alternando entre seus vários interesses e habilidades (consultores podem atender clientes tão diferentes que muitas vezes parece que mudaram de emprego ao mudar de projeto e atores alteram consideravelmente seu cotidiano quando vivem seus diferentes personagens). Outras ainda conseguem manter ocupações profissionais paralelas e bem diferentes entre si, dividindo sua agenda em vários turnos (leciona das 7h às 12h, costura às quartas e sextas e cozinha para fora aos finais de semana). Esse arranjo pode funcionar em um período específico da sua vida (“preciso de renda extra”, “sou cheio de energia e gosto de fazer muitas coisas”) ou pode ser algo mais constante, que de alguma forma se repete ao longo da sua trajetória.

De acordo com as mudanças na conjuntura do mercado, nas suas próprias motivações e interesses e nos conhecimentos e aprendizados que você tenha ao longo da vida, o que é lazer pode tornar-se uma profissão e o que um dia foi uma profissão realizadora e rentável, em outro momento pode ter que se limitar a ser um hobby ou simplesmente deixar de fazer parte do seu repertório, pois se tornou desestimulante e insustentável.

Adaptar o seu projeto profissional de tempos em tempos é algo inevitável e pode sim ser trabalhoso e um pouco assustador, mas pode também ser bastante libertador, já que sempre há uma porta aberta para novos sonhos, hobbies e profissões.

(1) Atualmente o termo Orientação Profissional é preferivelmente utilizado para denominar de forma mais abrangente o processo de reconhecimento da identidade profissional e construção de um projeto de carreira, considerando não apenas conhecimentos, habilidades e comportamentos (ou vocações, como se dizia anteriormente), mas a realidade social do orientando e os fatores econômicos e culturais que o cercam e co-determinam suas escolhas.

Marina Bergamaschi equilibra sua vida como PsicólogaEmpreendedora,BoleiraEscritora, Bailarina e Mãe de gatos, dentre hobbies e profissões. Descobriu-se feliz ao poder alternar sua rotina entre atividades analíticas e mão na massa e ao conseguir ajudar outras pessoas a descobrirem o seu próprio equilíbrio também! ;) É sócia-fundadora da TRID — Trabalho e Identidade, empresa especializada em Orientação Profissional e de Carreira. Estudou Psicologia, Licenciatura e Especialização em Orientação Profissional e de Carreira, todos na USP. Atuou em consultório particular, escola, hospitais, consultorias e empresas nacionais e internacionais. A vivência clínica em terapia Junguiana e Coaching e a experiência organizacional em Recursos Humanos, proporcionaram um olhar humanista que se uniu à paixão por escrever para criar este e outros textos.

 

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Comments: 5
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