Que posição você ocupa? Um texto para quem gosta de reclamar

Imagem: Ilse Bing, Self-Portrait in Mirrors, 1931 (Extraída de http://bit.ly/2aJHAOi)
Imagem: Ilse Bing, Self-Portrait in Mirrors, 1931 (Extraída de http://bit.ly/2aJHAOi)

Muita gente ou a maioria de nós, vai indo, vai levando, meio sem saber aonde vai dar. Raros são os casos em que se sabe com clareza onde se quer chegar todo o tempo. Parte disso é saudável, pois mostra uma certa consciência de que aquilo que imaginamos para nós não passa de uma possibilidade, dentre outras tantas. Não é à toa que nos dizem para aproveitar a viagem, o caminho, sem contar tanto com a felicidade lá no ponto de chegada planejado (lembrando aqui que planejado não é sinônimo de real: “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar.” ) (1)

Neste texto, vou partir de um fato corriqueiro para pensarmos nas diferentes e infinitas formas de se posicionar diante da carreira com o objetivo de, quem sabe, dar uma ajudinha para reclamões de plantão ou pra quem sente que perdeu a mão neste cuidado, mas não faz ideia do que esteja acontecendo.

Se você usa o transporte público em São Paulo, já deve ter se deparado com a seguinte pergunta de um estranho: “Para onde este ônibus vai? Olhei meio rápido e entrei!”. Pois bem: essa pergunta sempre me gera uma certa surpresa, por evidenciar um jeito de funcionar bastante diferente do meu e pela frequência com que acontece. Por um lado admiro quem se lança assim e por outro chego a achar absurdo. O que me surpreende é a quantidade de gente pegando ônibus sem saber para onde está indo e reclamando na sequência e armando um show para sair da situação: “Ah, meu pai do céu… e agora? E agora, como faço?”.

Aproveito, então, o exemplo acima para apresentar o que aqui vou chamar de posição, em referência a uma posição subjetiva ou o seu jeitão usual de responder/reagir às pessoas, relações, dilemas e criações na sua vida. Vamos pensar na pessoa que entra no ônibus sem saber para onde ele vai e convoca uma outra pessoa para dar a ela a resposta ou solução do mal entendido.

Substitua o ônibus do exemplo por vida profissional e teremos alguém que repete o entrar num trabalho em que não sabe bem o que vai fazer ou que confia na suposição de que aquela experiência vai leva-la para algum lugar que ela deseja. Além disso, ela assume o risco de não agir com base em algo claro, já que olha meio rápido e entra.

Vamos olhar a reclamação, à qual se segue uma mobilização: a pessoa vai tenta com um, tenta com outro, vai até o cobrador para tentar descobrir onde fica mais fácil descer para corrigir a rota. A pessoa envolve os demais no problema dela: xinga, reclama, pede ajuda, mas não parece se dar conta de que ela mesma se colocou nesta situação. Nunca vi uma pessoa nesta cena tomar uma decisão sozinha para resolver o problema.

Vamos substituir o cobrador e o desconhecido-informante pelo chefe, pela empresa, pelos pares, pela equipe, pelos colegas. Temos uma pessoa que impõe aos outros a tarefa de ajuda-la a sair de onde se meteu e provavelmente responsabiliza os outros (a vida, o pai do céu, o cobrador, o motorista, o informante-desconhecido, a empresa, o chefe, a rotina, a falta de tempo) pelo sucesso ou fracasso na empreitada. Temos alguém que não se dá conta do que faz recorrentemente para estar, repetidamente, em situações que a façam manter sua posição de queixa — poderíamos dizer de uma vocação para reclamar e para delegar a outros a tarefa de tirá-la dali.

Notem que quem reclama muito no trabalho, deve reclamar também em outras esferas da vida. Pois bem, aqui cai bem uma pergunta de Freud a uma de suas pacientes: “Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?”.

Não é simples perceber o que fazemos repetidamente e que nos gera infelicidade. Não costuma ser simples localizar sua responsabilidade e mudar de posição subjetiva diante da vida. Isso exige coragem para deixar de acreditar em quem você é e exige responsabilidade para que você faça algo a respeito — algo novo, algo diferente. Um esforço consciente para não cair na armadilha-de-você-mesmo-fazendo-aquilo-do-que-você-reclama.

Sobre as pessoas que são mestres em reclamar, tente imaginá-las em algum lugar nessa linha aqui….

Costumo pensar que são pessoas paralisadas: paralisia pelo medo de não saber fazer de um jeito diferente do que sempre fez, paralisia pelo medo de perder o controle ao se arriscar a fazer de um jeito diferente, paralisia diante da surpresa que a vida é.

Se você chegou até aqui neste texto, sugiro que você escolha aí algumas furadas pelas quais já passou e tente repassar seus passos. De preferência, escolha aquelas situações que acontecem sempre com você ou aquelas em que você diz “é a minha cara fazer isso” ou “isso só acontece comigo, é incrível”.

E é mesmo incrível! Experimente ocupar na cena que você criou um lugar diferente deste que parece tão familiar. Mais incrível ainda será você conseguir virar o disco e compor uma música nova, uma nova posição. Não se preocupe — ela pode sair meio desafinada e meio esquisita, mas acaba harmonizando com algo de esquisitinho (exquisito, no espanhol, quer dizer gostoso/bom) que só você tem e que te faz o que só você é.

Bom trabalho!

Adriana Ricci é sócia-fundadora da TRID- Trabalho e Identidade. Psicóloga especializada em Orientação Profissional e de Carreira pela USP, Coach pela SBC e Psicanalista pelo IPLA. Possui sólida experiência em Recursos Humanos, sempre ligada aos processos de vanguarda em desenvolvimento e gestão de pessoas de grandes empresas multinacionais, além de atendimento particular em orientação profissional e de carreira e psicanálise

(1) Caminante no hay camino — Poemas de Antonio Machado http://www.poemas-del-alma.com/antonio-machado-caminante-no-hay-camino.htm#ixzz4GZlAOEXV

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