Impactos da reforma no Ensino Médio na formação da identidade profissional

Fonte da imagem: Pink Floyd “Another Brick In The Wall”
Fonte da imagem: Pink Floyd “Another Brick In The Wall”

Na semana passada uma Medida Provisória que implementa algumas mudanças nas diretrizes do ensino básico levantou uma série de discussões sobre o tema. Um ponto específico, a ampliação do caráter técnico da educação e o prejuízo que isso pode vir a causar na formação da identidade profissional adulta, me chama especial atenção e vou me centrar nele por entender que trata justamente do tema central de dedicação da TRID: trabalho e identidade.

Assim, vale deixar claro que não entrarei, aqui neste texto, nas questões políticas sobre a validade de se legislar em educação com medidas provisórias, nas questões ideológicas sobre influências estrangeiras no modelo educacional brasileiro ou nas questões econômicas sobre investimento público/privado e participação civil em direitos básicos da população. A questão do tecnicismo será abordada para além destas questões (importantíssimas, claro, mas que deixo para outros especialistas discutirem).

Uma das principais mudanças que esta MP propõe é a ampliação da carga-horária do Ensino Médio, o que, na prática, significa a implantação do tão esperado ensino integral. Esta alteração por si só recobra a esperança de um ensino público de qualidade, que ofereça atividades complementares à formação juvenil, que dê conta de ocupar a vida ociosa que coloca em risco nossa juventude e que desenvolva o jovem em sua totalidade, o preparando para a vida adulta e para a entrada no mercado de trabalho.

O problema é que esta não é a única mudança proposta pela MP e não se terá simplesmente mais aulas, com ênfases diversas, à escolha dos alunos. A MP em questão flexibiliza a obrigatoriedade de algumas matérias básicas atuais (ficaria optativo aos alunos do EM praticarem Educação Física e terem aulas de História, Química, Artes, Filosofia e Sociologia, por exemplo). Isso porque a MP define que as instituições de ensino teriam obrigatoriamente apenas Matemática, Português e Inglês e completariam a carga-horária curricular com ênfases em áreas de conhecimento especializadas optativas: Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Formação Técnica Profissional.

Ou seja, ficaria mais ou menos assim:

  • Um aluno que optasse pela área de Linguagens, cursaria Matemática, Português e Inglês + Espanhol, Chinês, Literatura, Redação, Mídias ou outras aulas relacionadas a área de linguagens, de acordo com o que a instituição achasse relevante oferecer.
  • Um aluno que optasse pela área de Matemática, cursaria Matemática, Português e Inglês + Física, Geometria, Cálculo, Laboratórios de Engenharia ou outras aulas relacionadas a área de exatas, de acordo com o que a instituição achasse relevante oferecer.
  • Um aluno que optasse pela área de Ciências da Natureza, cursaria Matemática, Português e Inglês + Química, Biologia, Física, Laboratórios de Bioquímica ou outras aulas relacionadas a área de biológicas, de acordo com o que a instituição achasse relevante oferecer.
  • Um aluno que optasse pela área de Ciências Humanas, cursaria Matemática, Português e Inglês + História, Geografia, Sociologia, Filosofia, Artes ou outras aulas relacionadas a área de humanas, de acordo com o que a instituição achasse relevante oferecer.
  • Um aluno que optasse pela Formação Técnica Profissionalizante, cursaria Matemática, Português e Inglês + as matérias da área especializada: desenho técnico no curso de Edificações, contabilidade no curso de Administração, marketing no curso de Comunicação e aí por diante. Além de que todas as áreas acima, teriam, como no ensino profissionalizante, períodos de estágio em empresas públicas ou privadas, visando incluir experiência prática de trabalho no setor produtivo ou em ambientes de simulação para uma “aprendizagem profissional”.

Se já não fosse suficientemente problemático escolher uma trajetória específica de estudo, qualificação e treinamento prático na transição do Ensino Médio para o Ensino Superior, passaremos a exigir que os estudantes façam esta escolha na transição do Ensino Fundamental para o Ensino Médio, não mais aos 17 anos, em média, mas com cerca de 14 anos. Fazer escolhas é parte natural do desenvolvimento e pode-se entender que educar é justamente inserir os novos no mundo, tarefa que cabe tanto à família quanto à escola e que ocorre desde a tenra infância. Não estou aqui defendendo que atrasemos o momento de escolha profissional, longe disso. Este outro texto da TRID (Será mesmo um absurdo fazer a escolha profissional tão jovem?) trata muito bem deste assunto e sigo de acordo com esta posição.

O meu ponto é que restringiremos ainda mais cedo a exploração dos recursos do mundo, ou seja, em vez de oferecermos diversos estímulos para que os jovens se apropriem do conhecimento de si e do mundo de forma livre e plural, passaremos e especializar e tecnicizar o acesso à informação e à cultura desde o começo da adolescência e não mais no final da mesma, como transição para a fase adulta.

O modelo tecnicista e utilitarista de produção, que é um dos principais fatores de restrição do significado do trabalho humano e que massifica, entristece e adoece os profissionais maduros atualmente, passará a ser imposto também para adolescentes, que desde cedo começarão a ser doutrinados para se encaixarem ao sistema vigente.

Se já vemos hoje a proliferação da desconexão entre valores, expectativas e desejos pessoais e a cultura, objetivos e metas do mundo do trabalho, o que será daqui para frente? A perda de propósito generalizada que estamos acompanhando entre as gerações em idade produtiva está ligada a uma crise entre identidade pessoal e identidade profissional. Adiantar a iniciação profissional com um ensino mais técnico me parece aumentar a probabilidade de agravamento desta crise.

Digo isso porque entendo que é apenas com autoconhecimento e exploração do mundo que formamos um conceito mais autêntico sobre nossos valores e propósitos, o que nos permitirá comparar com propriedade os nossos desejos com os desejos da escola, da família, da faculdade, do mercado de trabalho. Só assim poderemos traçar um plano e construir um projeto de vida integrado, que faça sentido para a realidade particular de cada pessoa.

O ensino básico, ao meu ver, deveria contemplar esta fase de exploração da maneira mais abrangente possível, para assim formarmos jovens capazes de experimentar diferentes situações e escolher de acordo com seus próprios desejos e limitações.

A MP discutida torna opcional às instituições de ensino oferecerem as experiências físicas e sensoriais de uma aula de Educação Física, as experiências dialéticas e políticas de uma aula de Sociologia, as experiências sociais, estéticas e reflexivas de uma aula de Filosofia ou Artes. Tirar a obrigatoriedade destas experiências nesta fase da vida não é dar liberdade de escolha, é deixar de garantir o acesso a formas alternativas de formação e de trabalho. Se hoje um jovem que não quer ser médico, engenheiro ou advogado já pena para se convencer e convencer as pessoas ao seu redor que pode ter sucesso e ser feliz sem seguir uma carreira tradicional, com uma experiência limitada a apenas uma área de conhecimento as opções deste jovem ficam ainda mais previsíveis e restritas, e ele terá ainda mais dificuldade na constituição de uma identidade profissional autêntica e na hora de fazer a transição para o mundo do trabalho dos seus sonhos.

Marina Bergamaschi é sócia-fundadora da TRID — Trabalho e Identidade, empresa especializada em Orientação Profissional e de Carreira. Estudou Psicologia, Licenciatura e Especialização em Orientação Profissional e de Carreira, todos na USP. Atuou em consultório particular, escola, hospitais, consultorias e empresas nacionais e internacionais. A vivência clínica em terapia Junguiana e Coaching e a experiência organizacional em Recursos Humanos, proporcionaram um olhar humanista que se uniu à paixão por escrever para criar este e outros textos.

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