Mais inventividade, menos criatividade

Fonte da Imagem: United Press International
Fonte da Imagem: United Press International

Estudando para uma prova na semana passada, fui presenteada com algo novo para pensar. Era um texto sobre arte e psicanálise(1), no qual a seguinte frase ‘me pegou’: “(…) a própria prática dos artistas é que desmente a todo momento qualquer definição”(2).

A todo momento, profissionalmente, sou desafiada a definir o que eu faço, principalmente no que diz respeito às práticas de coaching e orientação de carreira. Também como parte do meu trabalho, desafio meus clientes a encontrarem uma definição do que fazem profissionalmente: algo que permita uma localização temporária para um processo de re-invenção.

A resposta raramente está na ponta da língua: sinal de que ninguém sabe muito dizer o que faz sem o rótulo do cargo (definição reconhecida socialmente) e também sinal desses tempos em que muitas formações profissionais abrem caminhos práticos dos mais diversos: engenheiro trabalhando com vendas, relações públicas trabalhando com RH, profissionais de marketing empreendendo em áreas x, e por aí vai.

A discussão do texto conta a história de termos “desgastados” no campo das Artes: criação e invenção, dentre outros que ficarão de fora deste texto aqui. Emprestei a discussão mudando apenas para o campo do trabalho, onde entendo que também a discussão sobre os termos desgastados é válida, principalmente diante das incessantes demandas por criativos.

Fala-se muito sobre criatividade — alguns se arriscam a criar exercícios para desenvolver a tal habilidade e outros ganham bastante dinheiro com isso. E aí me deparo com o seguinte: “a palavra criação supõe tirar do nada, tornar existente aquilo que não existia antes. É uma palavra teológica.”(3): criar, isso que te pedem a todo momento no trabalho, é, antes de tudo, uma palavra com um quê de divindade. Isso combinou bastante, a meu ver, com a avalanche de pseudo-dizeres-motivadores: o impossível não existe! Você pode tudo, basta acreditar! Não: não basta acreditar, a não ser que você esteja repleto de onipotência. Dificuldades existem e algumas podem se tornar impossibilidades.

Saindo do mundo das divindades e passando ao mundo dos reles mortais, esse mesmo em que você acorda diariamente para trabalhar, vamos de invenção: “também é a criação de uma coisa nova, mas não de modo divino e absoluto. Inventar é usar o engenho humano, é interferir localizadamente no conjunto dos artefatos de que o homem dispõe para tornar sua vida mais rica e interessante”(3). Não tive dúvidas: eu trabalho com invenção e inventivos. Os criativos são raros.

E vamos lá: é neste campo, o da invenção, que devemos nos concentrar. Este seria o campo das possibilidades. A pergunta é: diante do que está ao meu redor (objetos, pessoas, dizeres), como posso criar novos arranjos? Em mim mesmo, em meu jeito de me posicionar na vida, em minhas relações com os objetos, pessoas e dizeres?

O autor fala ainda de produção (lembrando que ele está falando das obras de arte e do trabalho do artista) como uma “palavra marcadamente materialista”(3), sem qualquer sentido sobrenatural, como tem a criação. Trago ela para cá, porque, voltando à nossa vida profissional, do mesmo modo que a autora entende que produção é a palavra-ação que garante que uma obra de arte seja concretizada, quando falamos de carreira, não há como esquecer deste aspecto de concretizar algo, já que 99% das pessoas ainda têm no trabalho, sua fonte de renda.

Quando ouço: “Faça o que você ama”, a produção está na palavrinha “Faça”. Um verbo de ação. E é nesta etapa do processo de uma invenção (ou criação), que surgem as impossibilidades. São as dificuldades no caminho para tornar algo real: a dificuldade de abrir mão de um salário que cai todo mês na conta; a dificuldade de prestar um outro vestibular; a dificuldade de fazer faculdade enquanto sua família tem várias outras despesas; a dificuldade de mudar de área, quando você compete com pessoas que têm muito mais experiência que você; a dificuldade de ser presidente, sabendo que só há uma vaga dessas por empresa e sabe-se lá quanto tempo você está disposto a esperar.

Longe de ter uma visão essencialmente romântica sobre estas questões de trabalho e carreira, entendo que o romance faz parte sim do trabalho de orientação de carreira, mas como uma etapa inicial ou quase como a matéria-prima que o artista usa para produzir sua obra. É bom saber o que a gente ama fazer, mas melhor ainda é saber o que fazer com o que a gente ama fazer.

Eis um belo desafio que me lembrou o título do Cortella: Qual é a tua obra?(4) O que você fundou para o mundo? Não precisa pensar no mundo inteiro. Comece pelo pedaço que você conhece: sua casa, seus amigos, sua família, seu emprego, seu negócio. Às vezes, me deparo com pessoas tão preocupadas em fazer algo incrivelmente criativo (e quase divino), que desperdiçam milhares de chances de serem inventivos. Pessoas presas em alguns ideais, algumas definições impossíveis e tão, tão distantes do que está acessível que ficam paralisadas, com o doloroso benefício de ser algo tão difícil de conquistar que garante a este sonhador a tranquilidade de não abrir espaço para outros novos sonhos possíveis.

Mãos à obra! Parcele sua grande criação em sucessivas invenções — cuide de sua obra.

Referências utilizadas neste texto — que, a propósito, tem mais de invenção e produção, do que de criação ☺

1. Frayze-Pereira, João A. Arte, dor: inquietudes entre estética e psicanálise.Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2005.

2. João A. Frayze-Pereira citando Dufrenne (1982)

3. João A. Frayze-Pereira citando Leyla Perrone-Moisés (1990)

4. Cortella, Mario Sergio. Qual é a tua obra? Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. Editora Vozes, 2009.

Adriana Ricci é sócia-fundadora da TRID- Trabalho e Identidade. Psicóloga especializada em Orientação Profissional e de Carreira pela USP, Coach pela SBC e Psicanalista pelo IPLA. Possui sólida experiência em Recursos Humanos, sempre ligada aos processos de vanguarda em desenvolvimento e gestão de pessoas de grandes empresas multinacionais, além de atendimento particular em orientação profissional e de carreira e psicanálise.

Receba conteúdo exclusivo

 

(11) 9 9961-2333

 

| Alphaville | Berrini | Granja Viana | Higienópolis | Pinheiros | Sumaré | Vila Madalena | Vila Olímpia

São Paulo - SP

 

Empresa registrada no CRP/SP: 06/5671/J