Pelo que que você vai passar depois de passar no vestibular?

Estudou a beça (ou não), prestou ENEM (ou não), ralou no vestibular (ou não), raspou o cabelo (ou não), pintou a cara pro pedágio (ou não) e, enfim, começaram as aulas...

Existem mil e uma maneiras de se passar na faculdade: estudando muito, prestando um curso pouco concorrido, tendo alguma sorte sorte... usando a nota do ENEM, prestando direto o vestibular, fazendo uma prova online, entregando documentos... participando da semana do calouro, encarando todos os rituais e trotes para se juntar à galera, chegando 15 dias depois para evitar os desgastes, penando pra conseguir se inserir numa turma já formada...

Mas e o dia seguinte, quando finalmente você começa a percorrer os corredores da universidade atrás de salas sem fim, de aulas sem fim, de matérias sem fim? Será que você vai finalmente alcançar aquele sentimento de satisfação por ter feito a escolha certa? Será que vai finalmente se encontrar na tribo da facu, fazendo as amizades mais preciosas da sua vida? Será que vai finalmente se realizar e estudar tudo o que gosta? O que será que você vai viver depois de ingressar no Ensino Superior? Afinal, pelo que será que você vai passar depois de passar?

Tendemos a procurar sinais que evidenciem que a escolha que fizemos foi a certa, mas nem sempre o que encontramos é suficiente... Será que a escolha certa só foi feita se você adorar todas as matérias? Só foi a escolha certa se você curtir os estágios, quando começa a praticar o que estudou? Se você conquistar logo um bom emprego, ao se formar? Se você trabalhar a vida toda com a profissão em que se formou? Há controvérsias...!

Em geral, os primeiros semestres dos cursos superiores são repletos de disciplinas de base, pouco ou nada relacionadas com as matérias mais especializadas, aquelas que geralmente abordam os conteúdos que te fizeram escolher um curso específico. Durante um ou dois anos você vai encontrar um currículo repleto de introdução às humanidades (História, Sociologia, Antropologia, Filosofia, Psicologia...), fundamentos das ciências naturais (Biologia, Química, Anatomia, Farmacologia, Genética...) e noções gerais de exatas (Cálculo, Estatística, Economia, Geometria, Metodologia...).

Não é que você vá ter todas estas matérias, as ênfases variam de acordo com os cursos, mas invariavelmente, haverão surpresas:

Geometria no curso de Arquitetura pode ser esperado, mas você sabia que também estudará essa matéria se cursar Oceanografia? É que a parte referente ao relevo e topografia oceânicos, confecção e leitura de mapas marítimos, estudo de correntes, etc., exige algum conhecimento elementar de Geometria.

Filosofia para estudantes de História ou Letras pode parecer normal, mas e para estudantes de Medicina? Pois é, as questões morais relativas ao atendimento humano e à pesquisa médica, bioética e políticas públicas em medicina estão muito mais próximas das questões aristotélicas, socráticas, platônicas, das grandes questões fundamentais da sociedade ocidental, do que você pode imaginar. O próprio juramento tradicional do Médico que se forma, o juramento de Hipócrates, traz muitos aspectos filosóficos, sociais e até religiosos em seu clássico conteúdo.

Bioquímica na faculdade de Farmácia, Odontologia ou Enfermagem pode fazer todo o sentido, mas e na faculdade de Engenharia Civil, lhe parece coerente? Pois saiba que nos cálculos de estrutura para levantar um prédio ou uma ponte, o domínio dos materiais (orgânicos e sintéticos) e suas reações diante de frio, calor, pressão, etc. é fundamental para garantir a segurança, a durabilidade, a estética e a funcionalidade das edificações.

Então, amigo vestibulando, esteja ciente de que você vai estudar matérias pouco atrativas ou pouco familiares para você, em que você pode encontrar alguma dificuldade, talvez apenas uma nota mais baixa, talvez pegando uma DP (dependência – o termo que se usa para dizer que você não passou em uma matéria e terá que repeti-la).

Não é raro que aqueles alunos brilhantes no colégio ou os primeiros colocados nas listas dos cursinhos, tenham suas primeiras decepções de performance nos primeiros semestres do curso superior. Isso não é necessariamente indicativo de que você fez a escolha errada, muitos são os motivos para isso ser tão comum:

As turmas são muito maiores (em média os colégios mantêm cerca de 30 alunos em suas classes de Ensino Médio, enquanto as universidades têm classes de cerca de 70 estudantes - algo mais familiar para quem passou por um cursinho) e com isso pode ser que você sinta falta de uma atenção personalizada dos professores, esteja enxergando mal por não sentar mais na primeira fila, fique inibido em se colocar e tirar dúvidas diante de uma plateia tão grande, entre outras coisas que podem afetar o seu desempenho acadêmico.

A carga de leitura é muito mais densa (um dos primeiros lugares que vão te apresentar é a sala de xerox, para comprar semanalmente um calhamaço de textos) e com isso pode ser que as duas horinhas que antes você reservava para ler já não sejam suficientes para entender um vocabulário mais técnico, pode ser que você esteja esgotado de tanto estudar para o vestibular e não consiga investir muita energia nos estudos no começo da faculdade, pode ser que você precise readaptar a sua rotina de estudo.

A ordem e a disciplina são muito mais flexíveis (acabou a rédea curta: nada de bedel, de inspetor, de sala da diretora, agora as consequências das suas ações são mediadas apenas por você mesmo) e com isso pode ser que você tenha muito mais dificuldade em dizer não para as festas, para matar aulas, para beber antes de entrar na sala e talvez isso prejudique seu boletim e apesar de seus pais não serem chamados pela coordenação, o gasto extra para pagar a DP que você pegou pode ser um problema para as suas finanças, por exemplo...

A novidade passa (a festa da semana de recepção de calouros acaba e as pessoas já não são tão simpáticas, no segundo semestre as panelas já estão bem formadas, quando começa Cálculo II, III e IV o interesse e a motivação que Cálculo I despertou já foi embora) e com isso você pode perder o deslumbramento, o foco e a dedicação dos primeiros meses. A maior parte das desistências e abandonos de curso superior acontecem no 2º ano, quando a animação pela novidade do início já passou e a dificuldade de manter o plano idealizado inicialmente desmorona, seja pela frustração de um desempenho mediano/ruim, seja por dificuldades financeiras/práticas em manter a nova rotina de vida.

As pessoas erram ou mudam de opinião (quem nunca trocou de vestido em cima da hora de sair pra balada? Quem nunca se arrependeu de ter chamado um amigo perna de pau pra entrar pro time na aula de Educação Física? Quem nunca defendeu um ponto de vista fielmente para em seguida ouvir um argumento que lhe fez mudar de posição?) e com isso pode ser, sim, que depois de conhecer melhor a grade curricular, de se frustrar com o jeito daquela instituição específica, de ter uma grande decepção com colegas, professores ou matérias você acabe de fato precisando fazer uma re-escolha. Às vezes é só pedir transferência de curso ou escola, às vezes é trancar a matrícula e dar um tempo, ir trabalhar ou fazer um intercâmbio, às vezes é voltar pro cursinho e prestar de novo o vestibular, às vezes é pedir ajuda de um Orientador Profissional para te apoiar nesta transição.

Enfim, passar no vestibular não é garantia de uma vida sem dilemas e tranquila, você vai se deparar com muitos desafios que colocarão em xeque aquela escolha do final do Ensino Médio, que foi tão difícil de fazer... O processo de escolha continua, na faculdade, na pós-graduação, ao começar a estagiar, ao receber uma proposta de mudança de cidade ou emprego, ao assumir o negócio da família ou abrir o próprio, ao se aposentar... Saber que é um processo e não um evento pontual tira o peso das decisões definitivas: nenhum desses costuma ser caso de vida ou morte, experimentar é desejável, errar é possível e apostar é necessário. Coragem!

 

Marina Bergamaschi  é sócia-fundadora da TRID - Trabalho e Identidade, empresa especializada em Orientação Profissional e de Carreira. Estudou Psicologia, Licenciatura e Especialização em Orientação Profissional e de Carreira, todos na USP. Atuou em consultório particular, escola, hospitais, consultorias e empresas nacionais e internacionais. A vivência clínica em terapia Junguiana e Coaching e a experiência organizacional em Recursos Humanos, proporcionaram um olhar humanista que se uniu à paixão por escrever para criar este e outros textos.

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