Trabalho manual X intelectual – vamos falar desse tabu?

 

Você sabia que a palavra trabalho tem sua origem no latim tripalium, uma ferramenta de três pernas que mantinha cavalos e bois imóveis para serem marcados a ferro¹? E que Tripalium também era o nome dado a um instrumento de tortura usado contra escravos e presos na Roma antiga? Desse instrumento se originou o verbo tripaliare cujo primeiro significado era "torturar".

 

Trabalho, então, a partir desta primeira associação, significa tortura…

 

Talvez você já tivesse essa informação, mas ouso dizer que mesmo que esta seja uma novidade para você, que você nunca tenha consultado o dicionário para esta palavra ou ouvido falar de etimologia, você já passou por alguma situação profissional em que pensou: “Que tortura ter que ir trabalhar hoje!”  ;)

Este é um sentido que desde a antiguidade acompanha parte da nossa relação com o trabalho: trabalho como castigo, como sacrifício, como punição.

 

Labor x Opus

 

Este sentido de sacrifício é geralmente atribuído com mais frequência  ao trabalho braçal: “o trabalho sujo, mal visto, desvalorizado”. O trabalho que tem que ser feito, mas que ninguém quer fazer. Será?!  :-|

Os gregos e os romanos diferenciavam pelo nome o trabalho criativo ou intelectual – praticado e acessível apenas aos artistas e elites –  do trabalho braçal ou físicodelegado a escravos e quando muito a artesãos, de ofícios mais manuais:

  • Trabalho criativo = "Ergoni" (grego) e "Opus" (latim)
  • Trabalho braçal = "Ponosi" (grego) e "Labor" (latim)¹

E a partir destas definições tão antigas, perpetuou-se em nossa sociedade a crença de que alguns trabalhos são mais dignos que outros e que, portanto, alguns trabalhadores são mais dignos que outros...

É claro que as coisas mudaram: abolição da escravidão, revolução industrial, OIT, CLT, salário mínimo... são todas formas de tentar minimizar esta herança social e equalizar os direitos, deveres e condições de trabalho, mas pensemos cá entre nós: será mesmo que pensamos assim tão diferente disso? :-/

 

Crise de status

 

Ao longo da minha carreira, tanto em RH quanto no consultório, ouvi muitas vezes queixas que traduziam o conflito com relação à escolha pelo trabalho “braçal”: o adolescente que queria ser skate shaper, mas era obrigado pela família a prestar vestibular e acaba estudando publicidade ‘porque em agências posso desenhar e todo mundo tem tatuagem’; a analista financeira que começa a fazer cupcakes aos finais de semana e sonha em largar o emprego no banco para abrir uma loja de doces; a nutricionista que quer parar de emitir receitas e dietas para construir uma horta orgânica e viver de vender o que produzir; o herdeiro de uma grande empresa que fez curso de mestre cervejeiro e não sabia como contar ao pai que não queria gerenciar o negócio da família, mas abrir uma cervejaria artesanal; a jornalista que cansou de escrever pautas e tem o desejo secreto de ganhar a vida passeando com cachorros; o executivo que enfarta e começa a fazer aulas de marcenaria por recomendação médica contra o stress e descobre sua grande paixão, mas se acha muito velho para começar uma nova atuação profissional…

 

É claro que o momento da escolha profissional ou de uma transição de carreira nos traz uma série de questões difíceis e execuções mais complicadas ainda. São escolhas e mudanças que exigem muita reflexão, planejamento e persistência. Mas o que me intriga é porque tudo se torna ainda mais impossível quando o dilema envolve um desejo nosso de trabalhar com algo mais manual e prático, que exige pouco ou nenhum estudo acadêmico, algo que seja mais físico e não exclusivamente mental?

 

Temos uma diversidade de interesses e habilidades, das mais intelectuais (analisar, ler, falar, calcular, imaginar, criar, negociar, etc.) às mais manuais (carregar, correr, jogar, plantar, cozinhar, limpar, cuidar, operar, cortar, etc.) e acredito que todos tenhamos “talentos” em ambas as categorias (eu falo um pouco mais sobre os diferentes “tipos de inteligências” neste texto).

Não conheço e duvido que venha a conhecer uma pessoa que seja puramente intelectual ou estritamente manual. Em geral temos talentos nas duas áreas e é muito comum atribuirmos sucesso aos profissionais que justamente conseguem integrar esses talentos: o pintor de paredes que é bom negociador, o esportista que é muito bem articulado, a atriz que desenha e administra uma marca de roupas, o matemático que é muito habilidoso e organizado em casa e desenvolve um método de arquivamento revolucionário.

 

O que ainda parece ser um tabu é que possamos investir e desenvolver uma carreira que utilize mais francamente essas habilidades manuais e físicas. Utilizá-las em conjunto com as habilidades intelectuais tudo bem, mas investir na carreira de construtor, pedicure, motorista, horticultor, cuidador? “Não, imagina!! Isso é para quem não teve opção na vida, vá estudar engenharia, dermatologia, logística, agronomia, enfermagem...”

 

Educação Profissional - onde ensino e mercado se encontram

 

Boa parte dos cursos superiores no Brasil são resultantes de um processo de “intelectualização” de atividades práticas e problemas cotidianos que os profissionais braçais, comerciantes ou artesãos enfrentavam no seu dia-a-dia. Em primeiro lugar havia o ofício, a confecção do artesanato, a função, o problema a ser resolvido: e se fazia como se podia, descobrindo na prática o que funcionava e o que não funcionava. Depois (e beeeem depois) é que vinham os pensadores para resgatar, compilar, analisar, catalogar e ensinar as práticas, transformando-as em metodologia, ciência e teoria. Cursos como Ciências Imobiliárias, Medicina Estética, Design Industrial, Gastronomia, entre muitos outros são só alguns exemplos atuais que nos fazem pensar sobre esse processo de hipervalorização dos processos mentais em detrimento da prática e do trabalho manual.

 

Não faço aqui uma crítica à escolarização por si só, estudar é maravilhoso, qualquer pessoa se beneficia ao ter a chance de cursar uma faculdade, tanto pelo conhecimento especializado quanto pela convivência social que ela propicia. Mas percebo que os conhecimentos necessários para uma atuação profissional responsável e de excelência de boa parte das ocupações catalogadas atualmente caberiam tão bem quanto ou talvez até melhor em cursos de qualificação, escolas técnicas ou mesmo em estágios práticos (no molde dos antigos aprendizes) do que em cursos de nível superior – muito mais custosos e demorados.

 

E as oportunidades?

 

Cerca de 80 mil vagas de nível técnico são abertas anualmente em todo o Brasil, alguns cursos com relação candidato/vaga tão concorridos quanto a Fuvest, mas que em boa parte dos casos é vista apenas como uma formação complementar ao Ensino Médio e não como uma capacitação profissional suficiente por si só e que serve como uma alternativa à Universidade. Para uma parcela significativa dos alunos que concluem o Ensino Técnico, a pressão por continuar estudando prevalece, como se apenas com um diploma de Ensino Superior pudéssemos ingressar e ter sucesso no mercado de trabalho.

 

Enquanto na Europa 50% da população que chega ao Ensino Médio têm formação técnica (chegando a 70% em alguns países), no Brasil, esse índice é de apenas 7,8%². Uma das causas dessa lacuna na educação profissional é a valorização do trabalho intelectual, que muitas vezes é defendida com base na expectativa de empregabilidade e salário de um ou outro tipo de trabalho. Mas engana-se quem acha que cursar a universidade garante emprego ou uma remuneração mais alta: um Técnico em mecânica e montagem de máquinas, por exemplo, tem uma remuneração média de R$9.603,00 – o equivalente a 200% do salário médio de um Cirurgião-dentista (R$4.863,00) e a quase o triplo do de um Programador (R$3.526,00), um Farmacêutico (R$3.608,00) ou um Nutricionista (R$3.185,00)³. Além disso, os Ofícios Manuais estão em 1º lugar entre as áreas que mais têm vagas e estão em busca de profissionais qualificados hoje no Brasil e no mundo: das 10 áreas com mais oportunidades, 6 não exigem formação superior, mas qualificação técnica ou mesmo treinamentos operacionais pontuais.4

 

Por isso, meu amigo estudante, minha amiga em crise com a carreira tradicional, amigxs em momento de escolha ou transição profissional em geral: vamos ampliar nossos olhares e abrir nossos corações para aquele sonho tímido de ser Padeiro, Babá, Dogwalker, Jardineiro, Motorista de Caminhão, Cabeleireiro ou Tatuador. Não só ele pode trazer muito prazer e realização, mas pode também ser um projeto profissional viável, sustentável e até muito promissor financeiramente.  ;)

 

¹ Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Trabalho_(economia)

² Estadão Opinião: http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,ensino-tecnico-e-profissional-no-brasil,10000003243

³ Folha UOL: http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2016/08/1808445-salario-de-tecnico-e-maior-que-o-de-graduado-em-diversas-areas.shtml

4 ManpowerGroup: http://www.manpowergroup.com.br/wp-content/uploads/2016/02/Pesquisa-Escassez-de-Talentos-2015.pdf

 

Marina Bergamaschi  é sócia-fundadora da TRID - Trabalho e Identidade, empresa especializada em Orientação Profissional e de Carreira. Estudou Psicologia, Licenciatura e Especialização em Orientação Profissional e de Carreira, todos na USP. Atuou em consultório particular, escola, hospitais, consultorias e empresas nacionais e internacionais. A vivência clínica em terapia Junguiana e Coaching e a experiência organizacional em Recursos Humanos, proporcionaram um olhar humanista que se uniu à paixão por escrever para criar este e outros textos.

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