Quando adaptar-se faz mal

Imagem: osegredo
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“Quando a normalidade mata

E a loucura cura,

Orai por nós os que desmaiam,

A nobreza aflita,

A esquisitice santa”

(Roberto Crema)

 

A adaptabilidade costuma ser uma habilidade presente na maioria dos manuais de sobrevivência no trabalho. A disputa frente à concorrência, tanto entre organizações quanto entre pessoas, além do medo diante da possibilidade de se tornar ultrapassado (e descartado) em poucos segundos, coloca todos em constante busca por adaptação.

Por um lado, a condição da impermanência é uma das leis da vida: tudo muda. Nesse caso, uma dose de flexibilidade ajuda, e muito, a se relacionar com as tantas transformações que vivemos. Por outro lado, como diz o ditado, “a diferença entre o remédio e o veneno é a dose” e, embora poucos se deem conta, o excesso de adaptabilidade pode ser letal. Basta pensar que a mesma adaptabilidade a uma jornada de 10 horas de trabalho pode garantir o seu emprego, mas também acabar com a sua saúde ou relações sociais.

Adaptar-se a um ambiente ou situação é enquadrar-se, adequar-se às suas normas e exigências a fim de pertencer a determinado contexto, seja ele uma empresa, um projeto, um grupo de amigos, um relacionamento amoroso ou colegas de trabalho. Aqueles que não pertencem, por não poder ou não querer, ficam de fora e costumam ser vistos pelos que estão dentro, como estranhos, lugar um tanto desconfortável de estar.

Ouve-se e repete-se muitas vezes: “Que cara estranho, esse aí não é normal”, dando um tom pejorativo a tudo que não é igual ou foge  às suas referências pessoais. Normal é ser igual e estar de acordo com as normas de um determinado contexto. É “normal” para muita gente fazer uma faculdade, fazer carreira em uma grande empresa, almejar um cargo de liderança, trabalhar até às dez da noite, suportar os insultos do chefe. Tais padrões correspondem a um modelo bastante difundido de homem bem-sucedido. Provavelmente, para as pessoas que o seguem, modelos diferentes deste soam estranhos.

O problema aqui não está em adaptar-se a este  modelo em si, se ele, de fato, corresponder ao que você deseja. A questão é que muita gente busca se adequar a inúmeros modelos e segue um conjunto de hábitos considerados normais, mas que, na realidade, são patogênicos. Há uma normalidade doentia quando esta é alcançada de forma automática e inconsciente, quando as pessoas a seguem num espírito de rebanho.

Quantos são avaliados excelentes funcionários por executarem brilhantemente suas funções e cumprirem com afinco as diretrizes? Isso é bom para quem? Por um lado, este é um método eficaz para atender às expectativas sociais e não perturbar a ordem, por outro, o preço pago pode ser alto se, para adequar-se, for preciso atropelar seus próprios desejos e necessidades.   

Costuma ser amedrontador não pertencer ao rebanho. Em algum nível, isso nos torna vulneráveis, expostos à crítica. Mas, se este medo não for enfrentado e os “padrões de normosidade”, de certa forma, não forem rompidos, há um enorme risco de estagnação dos seus sonhos, de viver um projeto sem sentido, de não realizar suas potencialidades. “A pessoa realmente saudável é dotada da capacidade de um desajustamento justo, de uma indignação lúcida, de um aspecto sóbrio”¹.

É necessário descobrir e aprender a escutar o próprio desejo, assumir a responsabilidade pelo próprio destino para que a adaptação não aconteça exclusivamente aos padrões normativos externos. Do que adianta “enformar-se”, entrar na fôrma social e deformar-se, perder a sua própria forma?

 

¹ Roberto Crema & Jean-Yves Leloup & Pierre Weil. Normose: a patologia da normalidade. Ed Vozes: São Paulo.  

 

Camila M Fabre é psicóloga formada pela UNESP, com Aperfeiçoamento em Orientação Profissional e de Carreira pela USP e especialização em Psicologia Transpessoal pela ALUBRAT. Iniciou sua carreira na área de Recursos Humanos. Hoje atua como psicoterapeuta e orientadora profissional e de carreira sendo também sócia-fundadora da TRID — Trabalho e Identidade. Desenvolve um trabalho sensível, aliando técnicas corporais, artísticas e lúdicas, sempre considerando o desenvolvimento integral do ser humano.

 

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